::.. ONGs, fechando uma porta arrombada ..::

Cláudia Safatle
    Soma mais de R$ 51 bilhões o total de recursos repassados de 1999 até agora às Organizações não Governamentais (ONGs) e Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). Há um estoque de 91.604 convênios realizados entre essas instituições e o Poder Executivo federal e a grande maioria jamais prestou qualquer conta dos recursos recebidos.
    O governo tem muito pouca informação sobre o que aconteceu e o que costuma acontecer com essas verbas. Se a prestação de contas é raridade, a fiscalização jamais existiu.
O Tribunal de Contas da União chamou a atenção do governo, no relatório de 2006, para a necessidade de se estabelecer controle sobre esse duto de dinheiro público e está, atualmente, com equipes de fiscalização em oito Estados. A Controladoria Geral da União (CGU) iniciou um programa mais amplo de fiscalização. Emitiu 2.236 ordens de serviço e despachou equipes de auditores para investigar 349 ONGs em todos os Estados. O ministro da CGU, Jorge Hage, primeiramente fez um mapa dessas organizações e identificou que hoje operam no país 276 mil ONGs. Destas, 7.883 recebem transferências de recursos federais desde 1999 e devem ser objeto de fiscalização periódica.
   
Nesse levantamento, ele concluiu também que "é falaciosa a informação que corria por aí de que o governo do presidente Lula tinha aumentado vertiginosamente os repasses para as ONGs". O que os dados indicam é que de 1999 a 2002 essas instituições receberam R$ 28,04 bilhões. Já no período de 2003 a 2006, a soma foi ligeiramente inferior em valores deflacionados, R$ 19,98 bilhões. Isso perfaz um total de transferências de R$ 48,02 bilhões em oito anos para as mais de 7 mil ONGs que vivem às custas do Estado. A estes se somam os cerca de R$ 3 bilhões do orçamento estimados para este exercício.
   
A primeira medida concreta para fechar a porta dos desvios de recursos e impor algum controle sobre esse canal de distribuição de dinheiro público ao chamado terceiro setor foi o decreto nº 6.170. Editado no fim de julho, ele traz uma série de restrições que passarão a vigorar a partir de 2008. A começar pela proibição do uso de dinheiro em espécie nas transações até o destinatário final. Hage conta que é uma prática corriqueira prefeitos, dirigentes de instituições de utilidade pública ou outras autoridades que recebem recursos federais mandar um funcionário ao banco sacar grandes somas de dinheiro e fazer os pagamentos em espécie , "sabe-se Deus a quem", diz.
   
O decreto exige que a partir de janeiro de 2008 todos os pagamentos sejam feitos em conta bancária, cheque nominal cruzado ou transferência eletrônica, de forma que fique registrado no banco oficial repassador dos recursos todo o caminho do dinheiro, até seu último destino. Aos bancos oficiais caberá ainda remeter à CGU e ao Ministério do Planejamento uma "fita retorno" com os extratos de todo o trâmite do dinheiro que o governo pretende, no futuro, disponibilizar no portal dos convênios que será montado pelo Planejamento, para que se possa acompanhar todas as transferências federais às ONGs, às OSCIPs e às prefeituras.

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CGU começa a fiscalizar o terceiro setor
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    "Com o decreto, esperamos fechar um dos principais ralos que é o pagamento em espécie", diz o ministro. "Outra medida importantíssima", salienta, " é a proibição, pelo decreto, de se repassar dinheiro para ONGs que tenham como dirigentes parentes até segundo grau de parlamentares, membros do Executivo, do Judiciário, do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União".
   
Ainda não se sabe quantas, das mais de 7 mil entidades, são fantasmas. Mas ao final dos trabalhos em campo dos auditores da controladoria, o ministro acredita que isso poderá ser dimensionado. Ele cita como exemplo de fraude a Fundação Aproniano Sá, do ex-deputado Múcio Gurgel de Sá, localizada no Rio Grande do Norte, flagrada pela fiscalização do governo que rastreou atividades dos parlamentares "sanguessugas". Os auditores do governo percorreram 20 municípios onde a ONG afirmava que atuava e não encontrou qualquer serviço por ela executado. "Vamos encontrando esses casos nas fiscalizações. Achamos também um caso muito estranho em São Paulo, de uma ONG ligada à igreja Renascer, que ainda estamos averiguando."
   
Há equipes investigando simultaneamente as 20 instituições que mais receberam recursos federais entre 1999 e 2006, as que receberam, por meio de emendas parlamentares, entre R$ 2 milhões e R$ 10 milhões nesse mesmo período, e as 180 ONGs que atuam local ou regionalmente e que receberam de R$ 200 mil a R$ 2 milhões. "Queremos ter uma abrangência nacional bastante ampla e esse estrato, que muitas vezes tem atuação local ou regional , são as principais destinatárias das emendas parlamentares e por isso, embora pequenas, elas nos interessa".
   
A oposição viu, nas notícias de que por trás de todos os escândalos mais recentes no país há uma ONG envolvida, a oportunidade de criar um a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Em março deste ano o requerimento, feito pelo senador Heráclito Fortes (DEM- PI), foi lido em plenário. Mais uma tentativa de instalar a comissão se frustrou na noite de quarta-feira, por atuação do PT, e novo ensaio foi marcado para terça-feira. O senador do DEM está coletando histórias de irregularidades e avisa que não vai tolerar mais adiamento da criação da comissão.
   
O ministro da CGU lembra que, de fato, em todos os escândalos mais recentes se encontra uma ONG. "Há sempre uma ONG assim como há sempre, nos escândalos de desvios de recursos públicos uma empresa, uma empreiteira, uma agência de publicidade, porque são entidades que recebem recursos federais." Tal presença era facilitada pela absoluta ausência da fiscalização do governo nessa área. "Nunca se levantou sequer esse mapa de quanto somam os recursos, para quantas entidades", ressalta o ministro.
   
O trabalho do governo e a CPI das ONGs - que se instalada terá que ser melhor sucedida do que a que funcionou em 2001 - podem fechar mais esse "ralo" por onde escapam os recursos públicos e deixar claro quem é quem no mundo das instituições de utilidade pública.

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