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    Matéria publicada na Edição 7 - Março de 2007 - Meio Ambiente

Mais conscientes do que as gerações anteriores, os jovens estão preocupados com a questão ambiental, mas ainda encontram dificuldades para agir de forma mais efetiva

Marilena Dêgelo

    Se a liberdade política foi a grande bandeira dos jovens nos anos 60, ecologia parece estar se transformando na principal bandeira de ação política juvenil. O interesse pelas questões ambientais cresceu extraordinariamente entre os jovens nos últimos 14 anos, desde a Eco-92. A pesquisa “O Que Pensa o Brasileiro Sobre o Meio Ambiente, Desenvolvimento e Sustentabilidade”, cuja etapa mais recente foi realizada em março de 2006 pelo ISER - Instituto de Estudos da Religião (em parceria com o Ministério do Meio Ambiente), mostra que, dos 479 jovens de 16 a 24 anos entrevistados em todo o país pelo Vox Populi, 79% têm consciência ambiental. Suas principais preocupações são o desmatamento e a poluição das águas e do ar. “Os jovens estão mais informados, e os mais escolarizados manifestam disposição para contribuir e até participar de ações, mas não encontram muitas organizações para isso no Brasil”, diz Samyra Crespo, coordenadora da pesquisa do ISER.

    A falta de espaços para participar é sentida por Thiago Pereira Barros, 22 anos, estudante de Ciências Biológicas na Universidade Estadual de Caratinga, em Minas Gerais. “Há muitos jovens na faculdade interessados em movimentos ecológicos, mas quase não há ONGs aqui”, diz. A preocupação dele é com o desenvolvimento sustentável. “Os agricultores precisam ser orientados para produzir sem devastar. Eles acabam cometendo o delito, apesar de serem multados pelo Ibama, porque sobrevivem disso e não entendem o mal que estão causando”, afirma. “O governo não pode punir, se não ensinar. Faltam campanhas de conscientização”.

    Na tela da TV

    Para a pesquisadora Samyra, uma explicação para o aumento do interesse dos jovens por ecologia é o crescimento do assunto na TV. O fato repercute mesmo em comunidades distantes dos centros urbanos. “Vemos nos telejornais as queimadas destruindo matas em vários lugares. Não há preocupação com a natureza, que é de todos”, afirma Carline Alves, 19 anos, que vive na aldeia indígena da tribo jenipapo-kanindé, em Aquiraz, a 45 km de Fortaleza. Lá, a Petrobras patrocina o projeto Educação Integral para a Sustentabilidade, coordenado por Jeovah Meireles, professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará, que promove o turismo ecológico comunitário com jovens.

    O local está sofrendo o impacto da construção de hotéis. “Há dois anos, desenvolvemos atividades para preservar o ecossistema e a sobrevivência da etnia”, diz Jeovah, que criou com os jovens o Projeto Trilha de Índio. Eles fizeram ecozoneamento, produziram mapas com atrações, como a lagoa Encantada, para vender aos turistas, e foram treinados para ser guias em trilhas ecológicas. Hoje, arrecadam em média R$ 12 com cada turista, caminham para a autogestão e pedem cursos para ter mais informação.

    Na aldeia, Carline, que concluiu o ensino médio, dá aulas para a quarta série. Segundo ela, o projeto ajudou os moços que, sem perspectivas, se entregavam à bebida e pensavam em deixar a aldeia. Agora, todos estão conscientes da necessidade de preservar. Mas sofrem com a morte de peixes causada pela poluição industrial. Já levaram denúncias à Funai e há processos na Justiça. “Eles não entendem que usamos a água da lagoa para tomar banho e que o peixe faz parte de nosso sustento”, diz. Além disso, a Encantada é um dos atrativos do Trilha de Índio. “Há lendas sobre ela que tentamos preservar”.

    Formação Sócioecológica

    A educação ambiental é hoje uma estratégia de atuação em vários projetos sociais mantidos por empresas. “Elas dão treinamento em programas de inclusão, juntando a questão ecológica com a social”, diz Samyra. Isso acontece na região do Pratigi, sul da Bahia, onde a Fundação Odebrecht investe na formação de moças e rapazes de seis quilombolas. O objetivo é promover o desenvolvimento em cadeias produtivas, como a da piaçava. Por meio da Organização de Conservação de Terras do Baixo Sul, a empresa mantém o Programa Jovem Cidadão do Meio Ambiente, com casas familiares rurais.
   
     “Na casa familiar, eu aprendi que é preciso conservar a natureza, para que as próximas gerações possam desfrutá-la”, diz Alberlânia Nasci-mento do Rosário, 20 anos, de Boitaraca, em Nilo Peçanha. Com a fibra da piaçava, ela faz artesanato que é vendido pela cooperativa. “Antes, nós desmatávamos e queimávamos a floresta para plantar a palmeira.

Agora, abrimos áreas menores e plantamos outras árvores, em torno da piaçava, para não empobrecer o solo”, conta. Ela já concluiu o segundo grau e está formando um grupo ecológico para conscientizar as comunidades vizinhas. “Todos deixaram de jogar lixo no rio. Separamos metais e plásticos e ganhamos dinheiro com a venda. Os restos de alimentos viram adubo no biogestor”.

    Colega de Alberlânia, André Carlos Conceição dos Santos, 19 anos, também aprendeu a cuidar do solo e desenvolve lavouras de cacau, seringueira, mandioca e piaçava, na comunidade de Lagoa Santa, em Ituberá. Ele sonha com se formar engenheiro-agrônomo: “É preciso pensar em novas tecnologias para que as pessoas continuem tendo trabalho sem causar danos ao meio ambiente”.

    Ações organizadas

    Nos centros urbanos, onde a pesquisa do ISER mostra maior interesse e disposição dos jovens para participar, há um número maior de grupos ambientalistas, como a ONG Argonautas, de Belém do Pará. “Ao entrar aqui, os jovens participam de jogos de interação com conceitos ecológicos. Na militância, desenvolvem calendário de ativistas, organizam mobilizações em ruas e praças”, diz Marcello Augusto Aponte, 33 anos, coordenador do programa de educação ambiental da ONG.

    Um dos ativistas da Argonautas é Samir Raoni Pinheiro Silva, de 18 anos, que cursa o segundo ano do ensino médio e há três anos coordena o grupo Ações Jovens Ativistas do Meio Ambiente, sensibilizando as pessoas para atitudes como não jogar lixo na rua e racionar o uso de água e energia elétrica. “Os mais jovens são interessados porque se preocupam em construir um futuro melhor. Mas os mais velhos não estão nem aí”, afirma. Samir reclama que os políticos não aprovam, nos orçamentos, projetos socioambientais no Pará. “Belém é uma cidade suja e poluída. Faltam fiscais para evitar desmatamentos e há muita corrupção. Fazemos as denúncias. O que mais podemos fazer?”, pergunta. “Em vez de viver em harmonia com a natureza, o homem parece um vírus destruindo uma célula”, diz.

   Educação verde 

    Os programas de educação ambiental implantados nas escolas estaduais também resultaram na maior conscientização dos jovens, mostrada na pesquisa do ISER. “Há conteúdos nas aulas que estão afetando os alunos”, diz Samyra. Os participantes de Coletivos Jovens – formados em 2003, para a implantação da Agenda 21 – prestam serviços para as Secretarias de Educação. Maciel Batista Paulino, 21 anos, que cursa o terceiro ano de Engenharia Florestal na Universidade Federal do Paraná, faz parte do CJ de Curitiba. Com mais nove jovens, encarrega-se da educação ambiental em colégios e promove encontros regionais. “Nunca a situação do meio ambiente foi tão discutida, e também nunca se desmatou tanto”, afirma Maciel. “Mas vejo cada dia mais jovens sensíveis aos problemas ambientais”.

   

    Maciel é crítico em relação às atitudes de desperdício. “Com pequenas ações, pode-se mudar muito. Sempre carrego comigo uma caneca para não precisar usar copo descartável que, além de poluir o ambiente, é feito de petróleo, uma matéria-prima que está se esgotando”, diz. Na opinião dele, a educação ambiental na escola deve abranger todas as disciplinas. “Se há um projeto de juntar latinhas, o professor de matemática trabalha com cálculo, o de ciências com a composição do material e o de geografia ou história com a origem. Isso ajuda a conscientizar”, afirma.    
   
    A pesquisa do ISER mostra que a consciência ecológica dos jovens também se expressa no consumo. “Eles compram uma camiseta de algum projeto, como Tamar, ou produtos orgânicos, ecologicamente corretos e étnicos”, diz Samyra. Mas, devido ao preço, consomem pouco. É a reciclagem de produtos que desperta mais o interesse juvenil (79%), seguida da economia no consumo de água e de energia. “Há consciência de que esses recursos são finitos”, afirma a coordenadora.

    A estudante da Escola Superior de Propaganda e Marketing, Letícia Yumiy Ono, 18 anos, mora em um condomínio de classe média em São Paulo, onde recentemente foi implantada a coleta seletiva de lixo e se interessou pelo processo de reciclagem. “Em casa, sempre economizamos água e energia elétrica, mas vejo que pouco se faz para reduzir os danos ambientais”, diz.

    Durante um intercâmbio na Dinamarca, em 2000, ela passou por um constrangimento. “Joguei pilhas usadas no lixo e levei uma bronca das pessoas de lá. Eu não tinha idéia dos danos que a pilha causa na natureza”, conta a jovem, que faz parte da ONG Children International Summer Village. Ela não conhece no Brasil organizações ambientais com temas de seu interesse. “Eu me preocupo mais com o lixo e com os desmatamentos na Amazônia”, diz.

    Nova militância

    Para Samyra, a decepção dos jovens com os partidos políticos e com a igreja deixou-os sem espaço para participar. “Diante da falência das ideologias, o ambientalismo pode se tornar a grande opção”, diz. Ela observa que os mais escolarizados, com segundo grau ou superior completo, são os mais interessados e dispostos a contribuir. “Independentemente da classe social, essa é uma tendência igual no mundo inteiro”, afirma. Outro fator importante é a residência nos centros urbanos. “Quanto mais baixa a escolaridade e mais longe dos centros urbanos, menor é a consciência”.

    Cíntia de Camargo Vilanova, de 23 anos, estuda Ecologia, na UNESP de Rio Claro, e faz estágio em um projeto de reforma agrária, onde cuida da preservação do solo. “Eu escolhi trabalhar em assentamento rural porque os agricultores carentes, sem querer, são os que mais degradam”, explica Cíntia. Ela considera o maior problema ecológico a expansão das áreas agrícolas, que degradam o solo. Mas sua maior preocupação é com a geração de lixo: “Evito comprar produtos com embalagens descartáveis. Em vez de pegar sacos plásticos no supermercado, eu levo mochila ou sacolas de pano”.

    A pesquisa do ISER mostra também que a consciência ambiental é maior entre os jovens até 34 anos. “Acho incrível a população entre 45 e 55 anos, que ocupa cargos de liderança, ser menos preocupada”, diz Samyra. O biólogo marinho Alexandre de Castro, 36 anos, fundador e diretor do Instituto Ilhas do Brasil, de Florianópolis (SC), concorda com o resultado da pesquisa. Há quatro anos ele mantém o projeto Estrelas do Mar que faz trabalho de capacitação de jovens na comunidade pesqueira de Pântano do Sul. “Essa geração tem mais informações e é mais sensível para as questões ecológicas. Hoje eles têm canais na internet, iniciativas nas universidades e ONGs que trabalham com o assunto”, diz Castro.

    Na comunidade de Pântano do Sul, a pesca industrial está limitando o espaço dos pescadores artesanais. “Para os jovens daqui, os problemas ecológicos não são apenas notícias. O futuro se torna difícil para eles”, diz o biólogo. Leonardo de Oliveira, de 14 anos, estuda na oitava série e é um dos jovens do Estrela do Mar. “Não existe fiscalização para coibir a pesca industrial na área de 500 m da costa, que acontece praticamente na praia”, diz. Ele acha que, se não forem tomadas medidas enérgicas, a pesca artesanal vai acabar em toda a costa brasileira. Mas, ao contrário de seu irmão mais velho, ele não quer ser pescador. “Até gosto de pesca, mas não tem mais peixe. Estou procurando outras oportunidades”.

    Além da pesca predatória, Leonardo queixa-se da falta de saneamento básico na comunidade e diz que era como os outros jovens que, antes do Estrela do Mar, eram “desligados”. “Agora sabemos que o mundo está sofrendo com o superaquecimento global e precisamos conscientizar as pessoas para que diminuam a produção de lixo e a poluição, não desmatem e deixem as espécies procriarem”, diz. Ele acha que depende de cada um fazer um pouco. “Eu, por exemplo, nunca jogo papel na rua. E o governo deveria investir mais em propagandas na TV para educar o povo”.
    
   
Depoimento    

    “Desde pequena tenho afinidades com o ambientalismo. Aos 15 anos, trabalhei na ONG Pró-Cerrado, com a inclusão social de jovens carentes em empresas, dando aulas sobre meio ambiente. Em 2003, entrei no Coletivo Jovem de Tocantins, onde trabalho com as questões de gênero e etnia. Faço palestras nas escolas e nas universidades. Já conseguimos a adesão de muitos jovens. Somos referência junto ao governo.
Regina Freire Arnaldo do Nascimento, 21 anos.
Palmas, Tocantins.

    Eu coordeno oficinas de reciclagem em movimentos sociais e faço o primeiro ano do curso Tecnológico em Gestão Ambiental da Universidade Luterana Brasileira. Trabalhei também na gerência de educação ambiental da Secretaria de Educação do Estado desenvolvendo o programa “Vamos cuidar do Brasil”.

    Este ano, eu pretendo atuar em assentamentos de terra e nas 15 comunidades quilombolas que existem em Tocantins. Nossas ações hoje são para que o impacto negativo no meio ambiente seja minimizado. Não considero que a responsabilidade seja só do governo. Acho que os recursos destinados ao meio ambiente existem: se não são liberados, acabam desviados. A população tem de contribuir e se organizar. O poder público e a sociedade devem entender que a causa é urgente.    

    Os problemas previstos para o futuro já estão acontecendo. Aqui sofremos com as mudanças climáticas. É um desafio para a coletividade mundial diminuir os problemas do superaquecimento. Cada país tem de reduzir a emissão de poluentes. Eu observo que os jovens estão preocupados em realizar ações, mas infelizmente ainda são vistos como pessoas irresponsáveis e não são levados a sério”.


Fonte: http://ondajovem.terra.com.br/
Matéria publicada na Edição 7 - Março de 2007 - Meio Ambiente

 


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